Como um boato de greve dos caminhoneiros provocou corrida aos postos de combustíveis

Uma nota divulgada por uma suposta entidade de caminhoneiros circulou na internet. Lideranças nacionais tentaram acalmar os ânimos, mas as pessoas correram aos postos atrás de combustível 03/09/2018 – 19h44min

A origem do boato de greve dos caminhoneiros que levou a uma corrida aos postos de combustíveis pelo país está em uma nota atribuída a uma suposta entidade disseminada pelo WhatsApp. Sem representar o posicionamento de lideranças da categoria, o comunicado levantou rumores de paralisação, arrastou pessoas às bombas e causou falta de gasolina em alguns estabelecimentos.

Na manhã de sexta-feira (31), a Petrobras anunciou o reajuste de 13% no preço médio do diesel, congelado desde o fim da paralisação de maio. Pelos grupos de WhatsApp, motoristas mais inflamados queixaram-se. Lideranças nacionais trataram de acalmar os ânimos, uma vez que o aumento ativaria o dispositivo previsto na lei e encareceria também o frete.

No dia seguinte, um comunicado assinado pela União dos Caminhoneiros do Brasil (UDC) foi amplamente compartilhado pelo aplicativo. “A UDC comunica que dentro de 10 dias fará uma mobilização nacional paralisando por tempo indeterminado todo o transporte rodoviário de carga”, diz a nota. Tratada como entidade, representa, na realidade, um grupo de WhatsApp e nunca participou das interlocuções da categoria.

Pelo aplicativo, proliferam-se também áudios anunciado a greve — alguns, ressuscitados do movimento de maio. “Vai começar nova paralisação de caminhoneiros no Brasil. Desta vez, bem mais forte e bem mais organizada e ordeira. (…) Já vão comprando ovo quem precisa comprar ovo, abastece o carro quem precisa abastecer o carro”, alerta uma gravação. “A gente vai travar de novo o país (…), mas, desta vez, não vai rodar nada, nem carro pequeno, nem ônibus”, ameaça outra.

O rastro de rumores é inflado por outros dois componentes. Primeiro, uma rede de postos de combustíveis de Pernambuco publicou em suas redes sociais que “havia rumores” de nova greve e aconselha que as pessoas “deixem seus veículos abastecidos”. Depois, um texto da Polícia Rodoviária Federal (PRF) foi disseminado pelo aplicativo de mensagens: “Circulam (…) mensagens de áudio cuja autenticidade não foi comprovada convocando para paralisação. Contudo, foi constatado que alguns são áudios antigos, veiculados em manifestações anteriores”. Apesar do conteúdo, reforçam o boato. De acordo com a PRF, era um documento interno a título de monitoramento.

Ao longo do domingo (2), os materiais tornam-se virais e a rede de boatos começou a levar as pessoas para os postos de combustíveis. Registram-se filas em cidades como Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife. Diante da demanda inesperada — até três vezes superior ao normal — provocada pelo efeito manada, acaba a gasolina em alguns locais até a chegada do reabastecimento.

Integrantes do grupo de cerca de 40 pessoas que participam das reuniões com o governo federal desmentem a notícia falsa. Sem indicativo de greve, carimbam como “nota falsa” o comunicado da UDC e divulgam novos áudios e vídeos. Boataria armada, era tarde demais.

— A notícia falsa se espalha mais rápido do que a verdadeira. É vapt, vupt — disse o caminhoneiro fluminense Nelson de Carvalho Júnior, líder do movimento nacional dos motoristas autônomos e contrário ao movimento.

Domingo, 2 de setembro
Pelo WhatsApp, lideranças dos caminhoneiros compartilham notas, áudios e vídeos desmentindo a possibilidade de paralisação.

Estimuladas pelos boatos, motoristas começam a buscar postos de combustíveis. Há registros de filas em Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife, entre outras cidades.

Segunda-feira, 3 de setembro
Alguns postos do país começam a enfrentar a falta de combustíveis devido à demanda inesperada até a chegada do reabastecimento.

O Ministério da Segurança Pública determina que a Polícia Federal investigue as mensagens com as informações falsas sobre a suposta paralisação dos caminhoneiros.

G1

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